O agronegócio brasileiro chega à segunda metade de 2026 mantendo papel estratégico na economia nacional. Depois de um 2025 marcado por forte expansão, produção elevada e crescimento da renda do setor, o campo iniciou este ano novamente em terreno positivo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o PIB da agropecuária avançou 2% no primeiro trimestre de 2026 em relação aos três últimos meses de 2025, desempenho superior ao registrado pela indústria e pelos serviços.
Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, entretanto, o crescimento da agropecuária foi mais moderado, de 0,7%. A desaceleração ocorre principalmente porque a base de comparação de 2025 é elevada. No ano passado, o PIB da agropecuária cresceu expressivos 11,7%, impulsionado pela recuperação das lavouras e pela expansão da produção de importantes culturas brasileiras. No primeiro trimestre deste ano, a agropecuária respondeu por aproximadamente 7,5% do PIB brasileiro, segundo a CNA.
As perspectivas para o restante de 2026 continuam positivas do ponto de vista da produção. Em junho, o Banco Central revisou de 1% para 1,7% sua projeção de crescimento do PIB da agropecuária neste ano. A melhora da estimativa foi atribuída principalmente às perspectivas mais favoráveis para as safras de soja, milho e café. Para o PIB brasileiro como um todo, o BC passou a projetar expansão de 2% em 2026.
Um dos principais pilares desse desempenho está novamente nas lavouras. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou, em julho, a estimativa para a safra brasileira de grãos 2025/26 para cerca de 360,1 milhões de toneladas, volume 2,2% superior ao registrado no ciclo anterior e que, se confirmado, representará um novo recorde para o país. Soja e milho continuam no centro desse avanço, reforçando o Brasil como uma das maiores potências mundiais na produção e exportação de alimentos.
A produção maior, porém, não significa necessariamente aumento proporcional da renda no campo. Esse é um dos principais pontos de atenção para o agronegócio em 2026. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil estima que o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) alcance aproximadamente R$ 1,45 trilhão neste ano, queda real de 4,3% em relação a 2025. A retração é explicada principalmente pela redução dos preços reais recebidos pelos produtores, mesmo diante do bom desempenho produtivo de diversas commodities.
Na agricultura, a pressão é ainda maior. A CNA estima um VBP de aproximadamente R$ 939,1 bilhões, redução de 5,3% sobre o ano passado. Produtos importantes para a composição da renda agrícola apresentam recuos relevantes, entre eles café robusta, algodão, milho e cana-de-açúcar. O cenário reforça um fenômeno conhecido no campo: safra recorde não é sinônimo de rentabilidade recorde. O aumento da oferta pode pressionar preços justamente no momento em que custos de produção, crédito e logística continuam elevados.
O setor também encontra sustentação no mercado externo. Apenas as exportações classificadas como agropecuárias pelo governo federal somaram US$ 42,65 bilhões entre janeiro e junho de 2026, crescimento de 9,2% frente ao mesmo período do ano passado. Soja, algodão e animais vivos estiveram entre os produtos que contribuíram para a expansão das vendas externas, enquanto a carne bovina também apresentou forte desempenho entre os produtos da indústria de transformação.
Para financiar o próximo ciclo produtivo, o Plano Safra 2026/2027 destinou R$ 525,1 bilhões ao crédito rural empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. Apesar do volume elevado de recursos, o custo financeiro permanece como uma preocupação do produtor: as taxas variam conforme a linha de crédito e chegam a 12,5% ao ano em algumas modalidades empresariais.
Quando considerada toda a cadeia do agronegócio, e não apenas a produção dentro das propriedades rurais, a dimensão econômica é ainda maior. O cálculo mais recente da CNA e do Cepea/Esalq-USP mostra que o PIB do agronegócio atingiu R$ 3,20 trilhões em 2025, equivalente a 25,13% de toda a economia brasileira, após crescimento de 12,2% naquele ano. O indicador inclui desde os fornecedores de insumos até a agroindústria, transportes, comércio e demais serviços relacionados à produção agropecuária.
Para 2026, o cenário desenhado até agora é de produção forte, mas margens mais apertadas. O Brasil caminha para mais uma safra histórica e mantém elevada presença no comércio internacional, enquanto a pecuária também segue com expansão da produção. Em sentido contrário, preços menores de importantes commodities, juros ainda elevados, custos de financiamento e incertezas no comércio internacional podem limitar o crescimento da renda.
Assim, o agronegócio brasileiro deverá continuar entre os principais sustentáculos da atividade econômica em 2026, mas provavelmente sem repetir o salto observado no ano passado. O desafio deste ciclo não está apenas em produzir mais — algo que o produtor brasileiro vem conseguindo fazer —, mas em transformar produtividade e escala em rentabilidade dentro da porteira e geração de valor em toda a cadeia agroindustrial.






